Uma brasileira em plena Escócia, May East trilhou seus caminhos para viver de um jeito diferente e encontrar uma maneira para ajudar o mundo viver melhor
Ver May falando de sua vida na ecovila de Findhorn, norte da Escócia, é logo imaginar como ela chegou até lá. Afinal, uma cidade pequena, ainda mais uma verdadeira comunidade sustentável na ponta setentrional do Reino Unido não é, definitivamente, um local óbvio para ser conhecido. Brasileira, May passou pela música e fez de tudo um pouco até encontrar um meio de mudar o mundo.
Desde cedo May, que nasceu batizada Maria Elisa, tinha uma inquietação: participou dos movimentos estudantis na década de 60, estudou Sociologia na PUC de São Paulo e encontrou um primeiro caminha pela arte e pela música. Parecia que era aí que estava sua história: no rock boêmio dos anos 80, como vocalista da banda Gang 90. Mas algo despertou em May que era mais do que fazer músicas para tocar em rádios FM. Foi passar uma temporada em Nova Iorque e, lá, além de desenvolver seus dons artísticos, passou a ter mais contato com movimentos que propunham uma visão diferente do mundo. Ganhou, também, o nome que usa hoje. “May é apelido de criança e East é porque todos os meus amigos moravam no West Side (oeste) da cidade, só eu que estava no East (leste)”.
E do nome, May tirou sua direção. No fim da década de 80, May foi mais para o lesta, para o Reino Unido, primeiro por conta da música que fazia, ligada a natureza e à Amazônia e participou de grupos de artistas ligados à questões ecológicas, como o “Artistas pela Natureza” e logo depois conheceu Findhorn. Um lugar frio, onde o verão dura pouco, o sol não aparece todos os dias e o vento sopra gelado quase o ano todo, como ela mesmo conta. Mas que encontrou uma maneira de viver, conviver, criar e respeitar a natureza e a sociedade para se tornar sustentável. Lá, a idéia é que a vida de todos os membros da comunidade tenha o menor impacto possível no meio ambiente, ou seja, que eles deixem no mundo a menor pegada ecológica que puderem.
May explica que a mudança toda não tem nada a ver com ter recebido conselhos de ninguém. “Eu mudei pois tinha necessidade e também vontade. São essas duas coisas combinadas que fazem as pessoas se movimentarem. Houve uma época em que eu senti necessidade de voltar às minhas origens, eu sou mestiça e na minha família se conta a história de que minha tataravó foi caçada a laço e talvez isso já estivesse presente em mim antes mesmo de eu saber”.
Desde 1992, May vive e trabalha na Fundação Findhorn, mas muito mais do que estar em paz consigo mesmo e com a idéia de que sua vida é sustentável, ela decidiu ajudar a levar estes conceitos e suas experiências para o mundo. Hoje, May, que tem duas filhas nascidas e criadas na ecovila escocesa, viaja o mundo como , educadora e consultora que trabalha com movimento global de ecovilas e novo urbanismo. Ela é responsável pelas relações interinstitucionais entre a Rede Global de Ecovilas e a ONU, além de ser diretora de relações da Ecovila Findhorn Foundation e coordenar os programas de educação para sustentabilidade locais.
“De uma certa maneira, nós somos um laboratório que testa idéias e práticas para um mundo melhor. Não pense que tudo aqui dá certo, nós fazemos muitas coisas que depois percebemos não darem um resultado satisfatório. Mas para fora só vai o que funciona”. Diz May, que conta não sentir falta do mundo das metrópoles por estar sempre viajando por elas e que a tecnologia hoje facilita tudo, mas ressalta a necessidade de uma mudança de visão e comportamento em relação a todas as facilidades atuais.“Nossa geração é a que tem a melhor qualidade de vida que se tem conhecimento e é preciso saber que quando se atinge o pico das coisas, se não é de uma forma sustentável, o único caminho é cair de novo. Habitamos, com a nossa geração, o território entre a catástrofe e educação. Somos enfermeiros de uma forma de vida terminal e parteiros de um novo modo de vida”
May tem o nobre papel, além de coordenar tudo o que ela coordena oficialmente como CEO (Chefe executiva) de Findhorn, de despertar nas pessoas que a ouvem e têm algum contato com seu trabalho, mínimo que seja, a fagulha de um pensamento por novas atitudes. Por isso, ela é gente que muda o mundo.
Julho de 2007
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